Primeiro de Junho


Mirela,
No primeiro minuto da meia noite de hoje eu provavelmente te mandei uma mensagem falando alguma bobeira por ser seu aniversário, talvez comparando nós duas a alguém ou algum meme. Porque é assim que nós somos juntas: tiramos sarro uma da outra o tempo inteiro, mesmo quando o assunto é sério demais para isso.
Eu sei que nunca tivemos uma oportunidade real de tomar um vinho barato com gosto ruim juntas enquanto falamos pornografia e rimos de coisas idiotas porque existe toda essa distância entre nós (1992km. 27h. eu pesquisei!!!), mas eu também sei que, provavelmente, eu não acharei outra amizade como essa em qualquer outro confim desse universo. Sou muita grata por isso.
Acho que nos conhecemos por aqui, no blogger, quando eu era nova demais para entender a diferença de "mas" e "mais" e, você, velha demais para ter a paciência necessária para lidar com alguém assim. Pelo menos era como deveria ser, porque acho que viramos amigas mais ou menos na mesma época. 
Torcemos uma pela outra desde aquele momento, seja eu enaltecendo a sua inteligência ou seja você me dizendo que eu posso ser tudo o que eu quero. Você também é a minha inspiração e sabe disso, porque acho que já te falei em algum momento desses sei-lá-quantos-anos que cultivamos essa amizade e porque realmente acho que você seja genial. Brilhante, como diria nosso amigo Ron Weasley.
Mirel(ind)a, você é forte e destemida. Vejo você enfrentando seus demônios de frente e ganhando a maioria das batalhas, encontrando-se consigo mesma cada vez mais. Você é inteligente (e se orgulha disso, como deve ser!), você tem o humor mais legal dessa internet e você tem, provavelmente, as melhores histórias para contar.
Eu te amo muito e espero que você esteja tendo um dia bom hoje, nesse primeiro de junho de dois mil e dezoito. Espero também que não esteja revirando os olhos para esse textinho meloso porque eu sei que não gosta desse tipo de atenção, principalmente no seu aniversário, e espero, acima de tudo, que entenda que eu não dou a minima para isso. Digo, pro fato de você não gostar de atenção. Pro seu aniversário eu dou. 
Enfim, eu acho que já falei tudo o que eu queria. Não, eu provavelmente vou ter esquecido de falar alguma coisa, você me conhece. Mas é isso: eu te amo, espero que tenha um dia bom e adoro recordar nossos momentos de amizade virtuais (vieram muitos deles na minha cabeça, mas não acho que posso citar todos sem que isso fique ainda mais brega). 
No mais, eu te amo. I love you. Je T'aime.  
Sinceramente e para sempre, 
Thaysa.

Hoje à Noite

02:05 AM
Cambaleio enquanto ando para longe da música alta, me batendo em tantas pessoas no processo que nem sei mais quantas gotas de bebida alcoólica caem sobre mim ou mancham meu vestido claro. Sei que extrapolei na bebida, mas me surpreendo quando meus joelhos vão de encontro ao chão sem motivo nenhum e eu preciso segurar-me na perna de algum desconhecido para me reerguer. 
As luzes florescentes do clube incomodam a minha retina, fazendo-me acelerar os passos em movimentos de completo desastre e desequilíbrio. Já fazia algum tempo desde a última vez em que entrei em um lugar como esse com a intenção de encher a cara, mas, dessa vez, a sensação não é como nas vezes anteriores e a bebida ingerida só serve para somar na minha equação de desgosto e desgraça. 
Empurro a porta marrom com força e corro até a cabine mais próxima. O banheiro esbanja um odor desagradável e há água lamacenta e marcas de sapatos por todo o piso branco, mas, mesmo assim, sento-me perto do sanitário pensando que já me fiz passar tanta vergonha num curto período de três pares de horas que mais uma não faria tanta diferença assim.
A porta volta a se abrir quando estou prestes a enfiar o dedo em minha própria garganta, na tentativa de ficar bem o suficiente para voltar pra casa dirigindo meu próprio carro sem batê-lo em algum poste ou coisa pior. Não me dou o trabalho de olhar para o local e checar a aparência da mulher que acaba de entrar no banheiro por inúmeras razões diferentes, mas reprimo meu ato na intenção de aguardar sua saída. 
– Você está bem? – Dou um pulo quando percebo que a entonação grossa não condiz em nada com uma voz feminina e me pergunto o que diabos um homem faz dentro de um banheiro que não o direcionado ao seu sexo. – Precisa de ajuda?
Ele se agacha ao meu lado e posso sentir seu olhar queimar minha orelha exposta e, embora eu tenha vontade de confrontá-lo e tirá-lo do ambiente, tenho a total consciência de que virar a cabeça em um ato rápido poderia fazer-me vomitar em um lugar não propicio e me colocar em uma posição muito constrangedora. 
– Esse é o banheiro feminino.
Digo, ignorando seus questionamentos sobre meu bem-estar e me pego extremamente chateada quando ouço sua risada ecoar pelo ambiente. Não havia motivos para risos ou zombarias, mesmo que, eu soubesse, minha situação fosse mesmo cômica.
– Exceto que este é o banheiro masculino. 
– Não é não! – Firmo, mesmo que já não tenha tanta certeza sobre a veracidade de minhas afirmativas. – Não estaria aqui se fosse.
– Tudo bem, então estamos no banheiro feminino. – Ele diz, a voz com aquele tom estranho que aparece quando a pessoa tem um sorriso na cara. – Você está bem? – Confirmo, mais para que ele pare de me importunar com a mesma pergunta do que por, de fato, querer deixá-lo a par dos meus fiascos. De qualquer forma, não é como se ele se importasse. – Você não me parece bem. O que aconteceu com seus joelhos?
Desvio meu olhar do piso branco enlameado e transfiro-o para meus joelhos, que eu sequer havia notado como sangrentos. Tinha tomado a ardência naquela região como resultado da queda que protagonizei há alguns minutos atrás, mas em momento algum achei que havia algum tipo de rasgo em minha pele.
– Só algumas cervejas a mais e o poder de ser chifrada. – Eu digo e, dessa vez, não me importo quando o som da sua risada ecoa o ambiente e até acompanho-o, saboreando a auto-depreciação como nunca havia feito antes. – Eu só preciso de uma aspirina e-
 Me interrompo no meio da frase, sentindo aquela ânsia pré-vômito que aparece quando você bebeu demais e seu organismo precisa dar um jeito de fazer você expulsar o excesso das porcentagens alcoólicas ingeridas. Eu sequer tive tempo de empurrá-lo para longe de mim quando o vômito desceu contra minha vontade, tão aguado e nojento como poderia ser, melando grande parte de minhas pernas e do vestido que as cobria parcialmente.
O estranho levanta em um reflexo muito rápido e segura meus cabelos, empurrando meu rosto de modo que o liquido incolor não fosse mais derramado em mim, mesmo que nós dois soubéssemos que o estrago já havia sido feito.
Continuamos nessa posição por um tempo enquanto eu terminava de expulsar a bebida do meu organismo e, mesmo depois que eu havia terminado e segurava minha barriga fortemente, por algum motivo, ele continuou lá.
– Tudo bem, vamos limpar isso. – Ele disse, agachando-se para que pudesse ficar da minha altura, passando meus braços por seu pescoço. Penso que deveria estar com vergonha, mas acho que o álcool mexeu com minhas inibições e, talvez por isso, tudo o que eu faço é assentir com a cabeça. – O que você bebeu, hein?
Em pé, o vômito começa a descer por minhas pernas e o cheiro de bebida impregnado nele começa a me incomodar. Tudo piora quando um grupo de caras entra no banheiro, confirmando que eu estava errada o tempo todo, e se estagnam enquanto observam a cena ridícula que estou me vendo obrigada a passar.
O estranho joga água nas minhas pernas e tenta limpá-las do vômito em movimentos comedidos, mas não parece nenhum pouco enojado - ou talvez seja apenas um bom ator.
– Vocês querem ajuda?
Pergunta alguém, já vindo em nossa direção, mas ele nega e agradece de forma bastante educada. Não me virei para ver a reação do outro, mas tinha plena certeza de que este ainda nos observava, porque não ouvi mais nenhum passo depois disso.
Não me leve a mal, não é do meu feitio beber tanto assim, principalmente por causa de um cara, mas, quando o vi com Mary, precisei descontar minha raiva em algum lugar. Não é como se o fim do mundo fosse acontecer porque Evan resolveu beijar outra boca que não a minha, claro que não, mas, quando acontece de ser traída pela irmã e pelo noivo ao mesmo tempo e, ainda, descobrir uma noite antes do próprio casamento as coisas são um pouco mais difíceis de lidar.
Apesar de minha total decepção em vê-los enquanto atracavam-se nus dentro do carro, não os confrontei. Não deixei sequer que eles soubessem de minha presença, saindo completamente atordoada e entrando no primeiro clube que encontrei. Enchi minha cara e dancei como não fazia há anos, o resultado disso tudo é que não me foi muito satisfatório.
A verdade, no entanto, é que, de todas as coisas que aconteceram no meu último dia como noiva, ter ficado bêbada na frente de um bando de estranhos não foi, em hipótese alguma, a pior delas.
– Agora venha, vou te colocar num táxi. – Ele diz, tirando-me do transe enquanto ajuda-me a me desfazer dos saltos. – Qual seu endereço?
– Não! – Nego com a cabeça e com os dedos, lembrando-me de que havia deixado meu velho fusca azul em algum lugar no fim da rua. – Não precisa. – Continuo, um pouco mais calma. – Eu posso dirigir.
Ele me analisa, intercalando seu olhar de mim para o vômito que expeli minutos atrás e, dessa vez, é ele quem faz sinal de negação. Sinto-me um pouco chateada por precisar da preocupação e ajuda de um desconhecido, mas sei que ele tem razão e, só por isso, mantenho-me quieta.
Não é como se eu pudesse simplesmente tratá-lo mal depois de ele ter colocado a mão no meu vômito.
– Não é por nada, mas eu tenho que discordar. – Ele começa, coçando a cabeleira de um castanho tão claro que poderia facilmente ser confundido por um tom mais queimado de loiro. Só agora percebo que ainda não tinha visto o seu rosto. – Acredite quando eu digo que você não pode. – Ele volta a rir, me levando consigo para fora do banheiro. – Venha, vamos lá pra fora.
Deixo que ele me guie, sabendo que é uma melhor opção do que eu mesma fazê-lo por conta própria mesmo não sabendo muito mais do que a sua cor de cabelo e a sua, provavelmente, boa índole. Noto, então, que sequer sei seu nome e a parte do meu cérebro que não foi totalmente tomada pelo álcool fica extremamente inquieta.
– Qual é o seu nome? – Grito, enquanto passamos por inúmeras pessoas e nos esquivamos de todas elas. Ele com a mão em minha cintura e meu par de salto nas outras, enquanto meu braço enlaça seus ombros em busca de apoio. – Qual o seu nome? – Volto a repetir, notando que ele não me ouviu. – Merda, me diz seu nome!
– O quê?
Ele grita de volta, o rosto extremamente próximo do meu para que eu consiga ouvir o que ele tem pra me dizer. A cena me faz pensar que, a qualquer momento, eu posso ter outra súbita vontade de vomitar e acabar fazendo isso exatamente na sua cara. Afasto-me assim que a possibilidade assola minha mente.
– Qual o seu nome?
– Qual meu telefone?
Ele parece confuso e eu me permito rir, deixando que a irritação fique de lado enquanto minha cabeça vai clareando ao passo em que estamos a poucos segundos de deixar o recinto.
– O seu nome! – Grito, mas no momento seguinte estamos fora do clube e minha voz sai em um tom inadequadamente alto para o ambiente. Rio pelo nariz. – Seu nome, qual que é?
– Ah, isso. – Ele fala, me induzindo um pouco mais pra longe do clube e um pouco mais pra perto do fim do passeio, onde estão estacionados os carros. – Pode me chamar de Dave.
– Dave, meu carro está no fim da rua. – Aponto para o desajeitado fusquinha. – Você pode me deixar lá.
– Não vou te deixar dirigir nesse estado. – Ele fala, como se fosse óbvio. Eu penso em mandá-lo ir procurar o que fazer, porque ele não tem nada haver comigo ou com a minha vida, mas acho que seria indelicado depois de toda a sua boa vontade para com a minha situação. – Se o problema é deixar o carro sozinho, eu posso dirigir até sua casa.
Casa.
Eu não quero voltar pra casa.
– Eu não quero voltar pra casa! – Digo, em voz alta, e ele assente com a cabeça. Parece, inclusive, ter muita paciência com gente bêbada e, de certa forma, isso me assusta, mas é um outro pensamento que sai pela minha boca em voz alta. – Por que você quer dirigir até a minha casa?
– Eu não quero. – Ele fala e, então, estamos de frente para o meu fusca. Ele parece sincero, então acabo acreditando. – Só estou tentando te ajudar.
– Eu não quero ir pra casa.
Volto a dizer, deixando de me apoiar em seu ombro pra apoiar-me na lateral do meu pequeno veículo. Não tenho mais aquela sensação de que a gravidade está contra mim e que, a qualquer momento, posso dar de cara com o chão, então relaxo um pouco mais.
A verdade é que não quero ir pra qualquer lugar que me lembre de Evan e do que achei que fosse nosso relacionamento, então ir para a casa que dividimos desde o segundo ano de relacionamento não me é uma ideia muito tentadora. 
Ah, como eu sou uma otária!
– Tudo bem. Pra onde você quer ir, então?
– Pra lugar nenhum, só... Abre o meu carro. – Dou minha bolsa para ele e me pego surpresa quando noto que ela nunca saiu dos meus ombros mesmo com tanta bebida alcoólica no sangue. Acho que eram essas coisas de instinto de sobrevivência que as pessoas costumam dizer que todo ser humano tem. – A porta emperra, tem que ser com força.
Observo enquanto ele abre a bolsa e remexe lá dentro, procurando a chave enquanto mantêm o cenho franzido. Noto que aquilo pode demorar um pouco, mas não me importo o suficiente para ajudá-lo, mesmo que eu tenha consciência de que ele já fez muito para alguém que sequer sabe meu nome.
Quando o pensamento cruza minha cabeça eu me inquieto outra vez. Por que diabos alguém que é completamente desconhecido perecia estar tão disposto a ajudar uma estranha bêbada e porque essa estranha bêbada não age com mais desconfiômetro, mesmo que saiba que precise da ajuda?
Estou prestes a me apresentar formalmente quando ele tira meu celular da bolsa, que emite um toque padrão e vibra em suas mãos. Ele levanta a tela para que eu possa ver de quem se trata e, então, me entrega o aparelho e volta a procurar pelas chaves.
Observo a foto de Evan no visor e não sinto muito mais do que raiva. Noto que aquela não é a primeira vez que ele tenta me contatar quando a ligação cai e vejo que já havia quinze outras perdidas, mas não me dou o trabalho de verificar se são todas dele.
 No mesmo momento, Dave parece ter achado a chave do carro. Pela primeira vez na vida sinto-me envergonhada de verdade pelo chaveiro que ganhei de brinde na última vez que fui ao sexshop quando ele olha para o pequeno pênis rosa shock com uma expressão, no mínimo, engraçada.
– Você é mesmo doidinha, não é?
É claro que ele iria tirar conclusões sobre mim e, a julgar pelos últimos acontecimentos, temo que não sejam nada boas. O pior é que não posso nem dizer que foram precipitadas, uma vez que só tive a chance e capacidade de mostrar um lado meu que raramente sai pra fora.
Veja bem, no geral eu sou uma pessoa extremamente correta. Vou ao dentista uma vez ao mês e pago as contas no prazo, sem falar na minha paciência de santa para cuidar de treze crianças pequenas todas as manhãs sem precisar de ajuda psiquiátrica. O que está acontecendo hoje é uma exceção que foge totalmente da regra, mesmo que eu já tivesse feito isso algumas vezes quando mais nova – mas, você sabe, águas passadas e coisa e tal.
Sorrio amarelo para ele que, balançando a cabeça negativamente e mantendo um sorrisinho divertido nos lábios, põe-se a abrir o carro. A porta trava, como eu previ, mas ele não tem muita dificuldade para contornar a situação.
– Pronto.
Estou pronta pra entrar no banco de carona quando noto a presença do meu vestido de noiva ali, ocupando o lugar que deveria ser meu. No mesmo instante, meu celular volta a tocar e, a foto de Evan, a aparecer na tela.
Não é como se eu tivesse muita escolha quando meus olhos começam a marejar e os soluços começam a sair de minha boca. É como se toda a tristeza que eu vinha reprimindo durante todo esse tempo quisesse ser expulsada e, sem ter muito o que fazer, apenas deixei que as lágrimas caíssem.
– O que aconteceu agora? – Dave pergunta e eu penso em repreendê-lo, mas nada sai de minha garganta além dos barulhos estranhos e lamurientos do choro desenfreado que eu comecei a protagonizar. – Certo. Certo. – Ele me faz sentar no banco de carona, em cima do vestido mesmo, e eu noto seu olhar sobre mim enquanto escondo o rosto nas mãos para que aquilo não seja ainda mais humilhante do que parece. – No que é que eu fui me meter, meu pai do céu?
A última frase sai mais pra ele mesmo do que pra mim ou qualquer outra pessoa e eu começo a rir entre o choro, pensando a mesma coisa que ele. Meu celular para de tocar por alguns segundos só pra voltar a exibir a foto de Evan novamente e, então, olhando o sorriso do cretino do meu ex-noivo, atendo, cheia de ódio.
– Em? – Silencio. – Graças a Deus, Em! Estamos todos preocupados, cadê você? – Soluços. – Emma? Você está chorando? – Mais soluços. – Amor? Fale comigo!
– Vai se foder, seu filho de uma puta desgraçado! Amor é o caralho!
Falo, entre o choro, e noto a inquietação de Dave a minha frente. Quando me atrevo a olhar em sua direção, ele parece surpreso com a minha súbita explosão.
– O quê? – Evan parece confuso e a raiva cresce ainda mais em mim. O cretino é cínico. – O que está acontecendo? Você está sóbria?
– Não, não estou, mas eu quero mais é que você se foda! – Eu falo e, a cada palavrão, é como se um peso novo saísse de cima das minhas costas. Dave agora prende o riso e eu só espero que, depois dessa noite, nossos caminhos nunca mais voltem a se cruzar. – Eu vi você e a Mary, dois escrotos! Eu estou com tanto ódio, com tanto ódio, que eu vim pra essa merda de clube e bebi todas, enchi a cara pra valer, mas a verdade é que eu devia ter tirado meu salto e ter quebrado ele bem na sua cara! – Silêncio. – E pare de me ligar!
Desligo o telefone na cara dele e respiro fundo, ainda sentindo as lágrimas descerem quentes pela minha bochecha, e controlo a vontade de rasgar o vestido que estou sentada em cima quando lembro da multa que terei de pagar caso alguma coisa aconteça com a peça. Maldito capitalismo.
 Olho para Dave e, instantaneamente, sinto-me envergonhada, mas ele começa a rir e eu percebo que nada disso importa de verdade: essa será só mais uma daquelas noites que ele irá contar para os amigos depois e rir de como tudo se assemelha a um filme e de como eu sou uma louca, desvairada.
– O que foi isso?
Ele pergunta, o sorriso ainda brincando em seus lábios. Penso que essa é uma expressão que lhe cai bem e me sinto idiota por observar esse tipo de coisa quando, de fato, tenho problemas muito maiores para lidar.
– Acho que um término.
Suspiro, derrotada, enquanto volto a soluçar.
03:07 AM
Depois que o meu súbito ataque de nervos e crise de choro se acalmaram, Dave mostrou-se ainda mais complacente ao comprar-me uma água mineral e, mesmo que ele tivesse evitado perguntar algo sobre, eu contei-lhe toda a minha trajetória de amor com Evan e narrei-lhe, mais detalhadamente do que realmente precisava, todos os acontecimentos que me fizeram parar dentro do banheiro masculino e precisar de sua ajuda.
Contei-lhe sobre o dia em que nos conhecemos e contei-lhe sobre como começamos a namorar. Contei-lhe como ele era sempre gentil e carinhoso e em como eu recusei duas vezes a seus pedidos de casamento antes de aceitar, de fato, assumir esse tipo de relacionamento com ele assim tão cedo e nos mudarmos para a minha atual casa. Ele era um bom ouvinte e, no geral, não me fez mais do que duas perguntas.
Também escutei quando ele resolveu falar sobre si próprio, provavelmente porque tagarelei inúmeros minutos sobre a minha fatídica relação com um cara que, definitivamente, não valia todo o meu esforço e ele achou que devia falar algo também. Ele me contou que era formado em cinema, mas que não tinha conseguido emprego na área que gostaria e, por isso, o trabalho numa empresa que produz vídeo para youtuber's não era uma coisa definitiva, mesmo que ele estivesse lá já há algum tempo. Ele também não tinha tido nenhum relacionamento com um fim tão caótico e desastroso como o meu, mas disse que um dia esperava chegar lá, em tom de piada.
Nesse meio tempo meu celular voltou a tocar pelo menos quinze vezes, mas nenhuma chamada pertencia ao meu ex-noivo. Mary, por outro lado, vinha tentando e persistindo por um bom tempo e não parecia querer desistir mesmo quando notou que eu não lhe daria a atenção desejada.
Bufo, chateada, quando a foto de minha irmã brilha junto com a luz do meu celular. A imagem chega a ser cômica: nós duas, no aniversário de três anos de Jonah, nosso primeiro sobrinho, onde o tema da festa era o irritante Mickey Mouse. Ela usava a tiara da Miney e, eu, um chapéu tamanho infantil do Mickey que não entrava por completo na minha cabeça e riamos de verdade para a câmera.
Lembro do momento exato em que a fotografia foi tirada: estávamos rindo de alguma piada idiota que Mary havia feito a respeito de alguém que passava ao nosso lado porque, de todas as qualidades que minha irmã possui, todo mundo sabe que ser engraçada é que mais se sobressai em sua personalidade, e, então, papai nos mandou aquela frase velha do “digam xiiiiiiiis” e tudo o que fizemos foi continuar rindo porque não conseguimos evitar.
Pensar na nossa boa relação me faz ficar ainda mais enraivecida, então desligo o celular de uma vez, prometendo para mim mesma que não irei chorar por causa disso nunca mais. É claro que sei que essa é uma promessa fadada ao fracasso, mas a faço mesmo assim.
– O que foi pior?
Dave pergunta, mas parece arrependido no mesmo instante em que põe os olhos em minha direção, talvez ele pense que eu vá começar a chorar de novo. Dou de ombros, dizendo que está tudo bem.
– Acho que foi ruim na mesma medida. – Falo, ciente de que não há mais nenhum sotaque bêbado na minha dicção e percebo que, a medida que o álcool vai saindo do meu corpo, eu me sinto mais envergonhada ainda. – De um lado eu tenho o Evan, que era o cara perfeito, e do outro eu tenho minha irmã mais nova, que é... Bem, é a minha irmã mais nova! – Suspiro, sem saber como concluir a sentença. – É só... Ruim. Muito ruim.
Dave assente, parecendo entender ou fingindo muito bem. É claro que, nesse ponto, eu já não me importava tanto com o que ele ia pensar de mim, uma vez que eu já tinha lhe contado todos os detalhes que me fizeram cair na atual bebedeira e ele, por sua vez, pareceu achar compreensível o fato de que deixei minha irresponsabilidade e dor de cotovelo falarem mais alto ao ingerir uma quantidade mais do que significativa de bebia alcoólica no sangue.
Quer dizer, se coloque em meu lugar: o que você faria se estivesse chegando em casa depois de um longo e cansativo dia organizando tudo o que faltava para a droga do seu casamento e dá de cara com seu noivo e sua, pasmem, irmã mais nova se atracando dentro de um carro? Bom, eu sei que eu fui encher a cara em um desses clubes que tem em todo lugar e, sim, talvez não tenha sido a decisão mais sensata que já fiz na vida, mas você não pode julgar alguém por algo assim.
 – Eu odeio tanto eles agora. – Dou risada, mas isso só faz com que tudo soe um pouco mais melancólico. – E você aí, me ouvindo. Estraguei sua noite, não foi?
Observo quando Dave sorri, negando com a cabeça antes de me responder. Ele não parece estar muito incomodado com toda a situação e a troca de confidencias feitas agora a pouco, mas eu não consigo deixar de pensar que ele poderia estar fazendo algo muito mais produtivo do que ficar batendo papo com uma estranha bêbada, vomitada e com certa tendência a cair no choro.
– Na verdade, você me salvou. – Ele ri. – Eu estava com esse pessoal lá da empresa em que eu trabalho e então alguns... Influenciadores... É, acho que posso chamá-los assim. Enfim, eles apareceram lá e então a coisa toda virou uma chatice. Esse tipo de gente que estraga qualquer coisa só de aparecer sabe? – Eu assinto, a imagem de alguns familiares pipocando em minha cabeça. – Você foi a minha desculpa perfeita.
– Bom, sendo assim, de nada.
Ele ri de novo, assentindo com a cabeça e, por um momento, faz-se um silêncio um tanto quanto constrangedor dentro do meu pequeno veiculo. Eu podia ouvir a música abafada que saia do clube, podia ouvir a nossa respiração e podia ouvir quando os carros passavam pela rua, mas isso não significava que os barulhos exteriores minimizavam a falta de conversação dentro do recinto em que estávamos ou que faziam com que o ambiente ficasse menos embaraçoso.
É certo que ele tinha me ajudado e é certo que tínhamos conversado muito mais do que geralmente converso com estranhos e tinha também o fato de que ele tinha colocado a mão no meu vômito sem nenhuma expressão de nojo, mas essas coisas não fazem com que um estranho deixe de ser, completamente, um estranho.
Finjo pigarrear e, pensando mais rápido do que meu cérebro levemente embriagado aguentaria, espero que ele comece um novo assunto ou que qualquer outra coisa aconteça para que saiamos dessa situação antes de eu resolver fazer alguma coisa estúpida – a vontade de rasgar o maldito vestido no qual eu estava sentada em cima ainda era extremamente grande.
– Então, você quer fazer alguma coisa? – Olho-o, surpresa. Ele ri em resposta e eu consigo perceber que ele ficou sem jeito. – Quer dizer, você não quer ir pra casa e eu sou uma pessoa boa o suficiente para não te deixar sozinha por aqui. Então, quer fazer alguma coisa?
Eu quero fazer muitas coisas nesse momento. Ainda quero quebrar a cara de Evan, destruir algo que ele goste muito, exatamente como ele destruiu todo o nosso relacionamento, e quero rasgar a droga do vestido. Quero muito comer aquela pizza que evitei durante todo o mês na esperança de parecer mais magra nas fotos do casamento. Quero gritar muito alto e chorar um pouco mais. E o mais importante: eu preciso, quero e desejo desesperadamente um banho.
Quando percebo, estou falando todas essas coisas para Dave, mesmo que eu não tenha tido a intenção de expressar as palavras quando, de fato, elas passaram pela minha cabeça. Isso me leva a crer que, na verdade, não estava tão sóbria quanto eu pensei que estivesse.
– Tudo bem, a gente pode dar um jeito nisso. – Ele fala e, mais uma vez, eu o encaro com certa surpresa. O que diabos aquele cara ia ganhar se metendo assim, tão diretamente, nos meus assuntos particulares? – Vamos, me dê esse vestido.
É só quando ele estende a mão que eu percebo que ele realmente tem intenção de acatar minhas ideias, mesmo que elas pareçam desconexas e ridículas até mesmo para mim. Em resposta, balanço a cabeça negativamente.
– Não, não. Isso vai fazer um rombo ainda maior no meu cartão! – Eu nego e ele parece entender, mas lembro de um fato muito importante: Evan havia deixado um de seus cartões, aquele com o limite maior e tudo o mais, para o caso de eu precisar se houvesse algum imprevisto. Como a situação inteira é o que eu posso chamar de imprevisto, apenas balanço a cabeça positivamente, mudando de ideia como a verdadeira geminiana que sou e, de repente, a coisa toda me parece totalmente acatável no momento em que percebo que o rombo não precisa acontecer no meu bolso. – Tudo bem. Vamos destruir essa peça branca horrorosa!
A mão de Dave volta a se estender e, com certa dificuldade, consigo tirar a peça debaixo de mim. Ele parece indiferente quando eu lhe entrego o vestido e parece indiferente enquanto abre a proteção e se põe a observá-lo.
Ao contrário do que eu disse um segundo atrás, essa é uma peça muito bonita. Eu tinha praticamente implorado por um adiantamento de salário pra poder alugá-la, porque, como toda coisa bem feita, era também muito cara e valia mais do que eu podia pagar.
– Hum... – Ele começa. – Você não acha que isso é muito branco?
– Por que é um vestido de casamento?
Pergunto retoricamente e ouço-o rir, o timbre de sua voz e os olhos se fechando quase completamente enquanto ele fazia tal ato começavam a parecer familiar para mim.
– Estou tentando dizer que existem maneiras mais legais de destruir um vestido de casamento. – Olho-o, completamente interrogativa, enquanto ele volta a fechar a proteção do vestido. – Tinta, lama, cerveja.
Sorrio para ele, aceitando o vestido de volta quando ele me devolve, todo o peso que a peça me proporcionava parecia se esvair aos poucos quando eu a imaginava completamente acabada.
Evan me odiará para o resto da vida. Ficaremos quites.
– Só vamos trocar a cerveja por coca-cola.
– Sim, ótima ideia.
***
Depois de uma breve discussão a respeito de quem dirigiria até o posto de gasolina mais próximo – assim eu poderia pagar por um banho, como os caminhoneiros fazem, e não precisaria voltar pra casa –, e depois de um extenso monologo protagonizado por mim sobre não deixar ninguém dirigir meu carro, chegamos a conclusão de que iríamos na moto dele.
É claro que tivemos outra discussão sobre eu estar sóbria o suficiente para me equilibrar em uma motocicleta e eu acabei finalizando toda a coisa quando disse que não faria diferença se eu estivesse mais ou menos bêbada porque ele não iria dirigir meu carro de qualquer forma. Então, quando o assunto nos saturou, nós subimos na moto. Eu com o vestido em mãos e pés descalços e ele com o cartão de Evan no bolso – o qual eu jurei ser meu, mesmo que tivesse o nome dele.
Fomos o caminho inteiro numa velocidade abaixo da média e eu tive vontade de gritar para ele ir mais rápido inúmeras vezes, mas preferi não abusar ainda mais de toda a sua boa vontade, mesmo que ele estivesse muito mais inclinado a permanecer comigo do que ir embora.
Assim que chegamos ao posto de gasolina mais próximo nos dividimos: corri atrás de barganhar um banho e, ele, de comprar tudo o que escrevemos em uma listinha no bloco de notas do celular trincado que ele tirou do bolso. Também trocamos nossos métodos de pagamento por alguns minutos: ele ficou com o cartão de Evan e, eu, com uma nota de vinte dólares.
Andei, então, completamente insegura, em direção aos banheiros. Eu já tinha meu equilíbrio de volta, o que foi de grande ajuda durante toda a minha trajetória até o local desejado.
Quando ia abrir a porta, no entanto, ouvi alguém gritar por mim.
– Ei, você de vestido branco! – Olhei pra trás, dando de cara com um grupo de adolescentes. Eu já sabia o que eles queriam porque, é claro, já havia feito muito disso na minha época de colegial: ir até os postos de gasolina e esperar que alguém com uma cara mais legal aparecesse para pedir por bebidas. – Ei, você pode fazer um favor pra gente?
Encaro o pequeno grupo de cinco pessoas enquanto eles se aproximam de mim: são três meninos e duas meninas. Todos eles vestem moletons e calça jeans e parecem um pouco nervosos com a situação por inteiro, principalmente o garoto que decidiu ser o interlocutor.
– Que favor?
Me faço de desentendida e percebo quando uma das meninas tenta esconder a expressão de escárnio, mas continuo encarando-os com a melhor expressão que consigo fazer.
– Comprar bebidas. Vodka.  – Volto a encenar ao fazer uma expressão de entendimento. – A gente paga.
Estou prestes a fazê-los irem embora, porque tenho coisas mais importantes para fazer no momento, mas, depois de analisá-los um pouco melhor, percebo que um favor em troca de outro favor nas minhas atuais condições é algo que possivelmente valha a pena.
– Tudo bem, mas não quero dinheiro. – Falo, vendo o semblante do rapaz se suavizar um pouco. Talvez esteja pensando que sobrará mais para a bebida. – Só outro favor em troca.
– Qualquer coisa!
Ele volta a falar e, querendo colocar a ideia pra fora, acabo sorrindo também. É claro que a coisa toda é completamente incabível, mas, quando penso em tudo o que já passei em menos de duas horas, decido que não custa nada tentar.
– Vou precisar trocar de roupa com uma de vocês. E um desses pares de tênis. – Eu falo, apontando para as meninas. – Tive alguns probleminhas de percurso.
A expressão que estampa a face de uma das meninas, a ruiva, se parece muito com desconforto e em nada com o escárnio de poucos minutos atrás.
 – Tudo bem.
Quem responde é um dos meninos e percebo a insatisfação no rosto da ruiva, mas quando vejo a morena assentir, concordando, sinto-me extremamente aliviada. Não é como se eu estivesse mesmo disposta a passar o resto da noite com um vestido vomitado e mal cheiroso, principalmente quando estou prestes a tomar banho.
Estendo a mão em busca do dinheiro e quando as notas tocam a minha palma, completamente amassadas, dou um sorrisinho para o grupo.
– Me esperem aqui.
Não espero que eles respondam quando volto a andar, em parte porque sei que eles não sairão mesmo dali e, em parte, porque preciso ser rápida já que Dave e eu havíamos combinado fazer tudo o que precisávamos por aqui em míseros quinze minutos.
Adentro, então, a lojinha de conveniência ao lado do posto de gasolina e tento não me encontrar com Dave no processo, mas é só chegar à parte destinada a bebidas quentes que dou de cara com suas costas na jaqueta esverdeada enquanto ele olha pra um suco de uva em caixa e parece muito concentrado. A mão desocupada carrega uma cestinha com metade das coisas que escrevemos na lista.
Continuo andando, tentando não chamar sua atenção, mas meus esforços vão todos por água abaixo quando ele vira pra trás no momento em que me posiciono em frente aos tipos de vodka que o lugar armazena. O olhar dele é interrogativo, mas ele faz a pergunta mesmo assim:
– Desistiu do banho?
– Não. – Respondo, quase rápido demais. – Vim fazer uma troca de favores. – Ele levanta as sobrancelhas e deixa que um sorrisinho apareça em seus lábios, como quem quer saber mais sobre o assunto sem precisar proferir uma palavra sequer. Eu, é claro, acabo saciando sua dúvida. – Bebidas para adolescentes em troca de roupas não vomitadas. Acho que vale a pena.
– Vale. – Ele confirma, olhando em direção as bebidas. – Mas isso não é contra os seus princípios de adulta e professora e... Como foi que você disse mesmo?
Demoro dois segundos para respondê-lo, porque, quando estava contando sobre a catástrofe que foi o fim de meu relacionamento com Evan, acabei dizendo algo semelhante ao que ele acabou de me perguntar e é claro que isso implica no que estou prestes a fazer, mas penso que, nas atuais condições, tudo que aconteceu até aqui somado com meus planos de destruir um vestido caríssimo e colocar todo o prejuízo na conta do meu ex-noivo já vai contra todos os meus princípios de um jeito ou de outro. Então, antes de respondê-lo, dou de ombros.
– A noite inteira está indo contra os meus princípios.
– Justo. – Ele fala, sorrindo, e estende o braço para pegar uma garrafa de vodka atrás de mim. – Aqui, segure. – Eu seguro, sem ter muitas outras opções, e ele volta a estender o braço. – Essa aqui também. Quantas pessoas estão lá fora?
– Cinco.
– Pegue mais uma então. – Ele volta a estender o braço, agarrando o terceiro litro de vodka, enquanto eu penso que nunca mais beberei algo assim na minha vida inteira. – Aqui.
Eu pego a terceira garrafa de suas mãos com certa dificuldade, torcendo para que nenhuma delas caia no percurso até o caixa, e, no processo, sinto seus dedos extremamente gelados roçarem levemente as costas da minha mão. Não acho que ele tenha se importado, até porque estou ciente de que ele precisou tocar as minhas pernas para limpar os resquícios do meu vômito, mas o contato me deixa um pouco aérea por alguns instantes, mesmo que eu não saiba explicar exatamente o porquê. Talvez seja a parte da bebida que ainda não tinha sido expurgada de mim.
– Eu vejo você lá fora, então.
Digo, já me afastando, e ele apenas assente com a cabeça, a face sem nenhum de seus já habituais sorrisos, mesmo que eu pudesse notar o mesmo olhar que ele exibia quando o estava fazendo.
***
Assim que saí do banheiro, ainda terminando de calçar o par encardido de All Star que, muito a contra gosto, a ruiva, que mais tarde descobri se chamar Anne, abdicara em prol dos três litros de vodka, avistei Dave encostado na moto parecendo muito entediado.
Caminhei o mais rápido que pude em sua direção, me sentindo muito grata pelo fato de a roupa ser exatamente do meu número. É claro que a calça jeans de lavagem escura e o moletom vermelho não se pareciam em nada com os meus habituais vestidos, mas estar dentro de algo que não me remetesse ao episódio anterior com a bebida já me era muito reconfortante.
– Cinco minutos de atraso. – Ele fala, olhando para um relógio que não existe, e depois se volta para mim outra vez.  – Ou alguma coisa assim.
– Então vamos logo com isso.
Eu tenho a total consciência de que pareço mais animada do que devia, principalmente porque o que vou fazer é completamente incorreto e realmente vai custar caro para Evan, mas a ideia de destruir algo me é muito mais namorativa do que curtir uma fossa com sorvete e uma maratona de filmes escritos por Nicholas Sparks.
Dave me passa o vestido e retira grande parte das coisas que compramos na lojinha de dentro da sacola enquanto eu abro a proteção da peça e a estiro no chão de asfalto do posto de gasolina, me afastando o máximo possível do local por onde os veículos costumam passar.
Olho para Dave esperando que ele me dê a coragem necessária para destruir uma peça tão linda, mesmo que, segundos atrás, visualiza-la completamente arruinada fosse um pensamento de grande felicidade. Quando ele sorri pra mim, me passando uma latinha de coca-cola já aberta, no entanto, a coragem volta com tudo.
Deixo que a coca caia sob o tecido branco, manchando completamente a saia do vestido, enquanto eu grito coisas desconexas até mesmo pra mim. Escuto Dave rindo ao meu lado e, então, estamos os dois gargalhando mais alto do que deveríamos enquanto viro o que sobrou da bebida na parte de cima do vestido.
– Esse vestido é mais caro que a minha casa! – Eu falo e, de repente, sinto uma vontade imensa de pisotear a peça. É o que eu acabo fazendo. – Meu Deus, Dave, olha a cor disso!
– Estou vendo. – Ele fala, rindo. – Espera um pouquinho aí.
Não dou muita importância, continuando com o pisoteamento e os gritos animados. A coisa toda parece muito mais terapêutica do que quando chorei por vários minutos e, definitivamente, muito mais terapêutica do que quando insultei Evan de todas as formas que me lembrei no momento.
– Olha pra cá.
Quando olho em sua direção, ele está com o celular trincado virado para mim, e eu gargalho quando percebo que se trata de uma foto. Acho que, em outras ocasiões, a ideia de ter uma recordação de um momento insano como esse me deixaria de cabelo em pé, mas, agora, enquanto olho para Dave rindo com o celular em mãos e enquanto continuo destruindo o vestido dos sonhos de qualquer mulher, penso que não seria de todo o mal ter algo para me lembrar de como a sensação foi libertadora.
 Ele guarda o aparelho de volta no bolso e eu me abaixo a procura do resto das coisas que compramos: encontro o suco de uva e algumas caixinhas de Toddy. Pego primeiro o suco, sacudindo antes de abrir por pura mania.
– E aí? Se sente melhor?
Ele pergunta, pegando uma das caixinhas do Toddy para ele mesmo, mas, quando penso que ele vai me ajudar com todo o processo e meter a mão na massa para destruir o vestido, ele apenas leva o canudo até a boca e dá uma sugada mais demorada do que o normal. Acho que devo ter feito uma cara engraçada porque, logo depois, ele me questiona.
– O que foi?
– Nada.
Falo, mas, contradizendo a mim mesma, furto seu Toddynho só para espremer a caixinha e ver o liquido marrom manchar completamente as mangas do vestido e, com a outra mão, ao mesmo tempo, deixo que o suco de uva se derrame em partes distintas do resto da peça inteira.
Eu duvidava que toda aquela confusão de cores pudesse vir a sair completamente um dia.
– Ei!
Dave reclama, mas, como o sorriso ainda continuava estampando seu rosto, acabo não dando muita importância.
Sento-me no chão ao lado do vestido, suspirando assim que a animação toda se esvai de dentro de mim. Ao contrário do que pensei, não tenho a consciência extremamente pesada e o sentimento de arrependimento se apoderando de todo o meu corpo, mas, sim, uma sensação de leveza emocional extremamente gratificante.
– Eu acho que ficou mais bonito assim. – Dave fala, sentando-se ao meu lado. – Você não?
Encaro a peça, completamente manchada em três cores diferentes e mais amassada do que nunca devido ao recente pisoteamento sofrido. Ela não me parece muito bonita.
– Não. – Dou risada. – Mas ficou do jeito que eu queria.
04:00 AM
Depois de alguns minutos sentados contemplando o vestido que eu usaria no meu casamento, jogando conversa fora e acabando com o que sobrou dos achocolatados, decidimos que era hora de sair dali. Dave catou todas as embalagens espalhadas pelo asfaltamento enquanto eu fiquei com a tarefa de colocar o vestido molhado de volta na capa de proteção, mesmo que isso fosse só uma formalidade e tanto eu quanto ele soubéssemos disso.
Fechei o zíper, finalizando o processo, e joguei a peça pesada por cima do ombro. Encarei Dave apoiado na motocicleta enquanto parecia muito compenetrado com alguma coisa no smartphone, não parecendo notar que eu já esperava por ele.
– Terra chama Dave.
Quando me escuta, imediatamente ele abre um sorriso, mas, no entanto, seu celular só vai parar no bolso da calça depois de alguns segundos. Penso, então, que Dave deva ser um dos caras mais carismáticos – ou felizes – de quem eu conheço, uma vez que raramente a expressão sai do seu rosto.
– Pronta para comer aquela pizza?
Franzo o cenho, arrumando o vestido de forma que o peso dele fique mais equilibrado em cima de mim, e observo quando Dave levanta uma das sobrancelhas, como quem quer enfatizar a mesma pergunta.
Não me leve a mal: é claro que eu quero comer a maldita pizza que evitei durante meses em prol de uma festa que sequer vai acontecer, mas acontece que a possibilidade de dar de cara com uma pizzaria aberta tão tarde da noite é completamente inexistente.
– Não tem como. – Eu falo, seguindo a minha linha de raciocínio, em tom de lamento. – Acho que não tem mais nada assim aberto.
Dave ignora tudo o que eu digo, me passando um dos capacetes e vestindo a própria cabeça no que sobrou. Continuo o encarando, com o objeto de proteção na mão desocupada, enquanto ele sobre na moto e buzina pra mim, em uma clara intimação.
– Nós não temos muito tempo.
– O tempo pra isso já acabou há muito tempo. – Eu falo e, antes mesmo que eu termine a sentença, ele buzina de novo, cobrindo a minha voz. – Ridículo.
– O que?
Ele grita, rindo, enquanto continua apertando a buzina freneticamente. Parece bastante feliz em me irritar, principalmente quando me vê desistindo de questioná-lo ao colocar o capacete e me direcionar até a moto.
– Você é ridículo.
Volto a repetir enquanto subo na moto, em tom de brincadeira, e, só de pirraça, ele volta a apertar a buzina. Penso que aquilo deva estar irritando as duas pessoas que vimos trabalhando na lojinha de conveniência, mas acabo gritando junto com o barulho da moto, e, então, Dave finalmente para, rindo.
– Segura.
Estou prestes a dizer que não tenho como segurar em qualquer lugar da motocicleta enquanto carrego o vestido, mas ele acelera no segundo seguinte e eu sou impulsionada pra frente, sentindo-me obrigada a me agarrar em seu tronco. O vestido vai junto, mas não sai completamente do meu colo.
Diferentemente da última vez que subi em sua moto, Dave não parece se importar com a velocidade ou com o fato de eu estar, supostamente, fora de mim, e se põe a dirigir no limite de velocidade. Acho que, depois do banho, ele deve ter presumido que eu já não estava assim tão miseravelmente ruim – o que, de fato, era verdade.
Fomos assim durante o caminho inteiro: eu me segurando em seu tronco – o que era um pouco estranho quando parávamos em algum sinal vermelho, uma vez que não tínhamos intimidade o suficiente para esse tipo de coisa – enquanto fazia muito esforço para não deixar o vestido escorregar do meu colo e atrapalhá-lo na pilotagem e, ele, apenas dirigia.
Quando entramos em determinada rua, começo a sacar pra onde ele está me levando, e penso que nunca vi a German Pizzaria aberta depois das duas da manhã. É claro que estou completamente certa: quando Dave diminui a velocidade, percebo o estabelecimento fechado.
– Não está aberta. – Falo, me sentindo bem agora que sei que estive certa o tempo inteiro. Aquela sensação engraçada que temos quando nos descobrimos na razão desde o inicio. – Eu disse.
Não consigo ver a expressão de Dave, mas imagino que deva ser de, no mínimo, desapontamento.
– Ta vendo aquele cara parado ali? – Ele pergunta e eu confirmo. – O nome dele é Rick, gente boa, amigão meu. – Quero perguntar a ele o que esse Rick, mesmo que ele seja gente boa e amigão dele, tem a ver com o fato de que eu estava certa e, ele, errado. – Ele também é o chef.
– Mentira! – Falo, em parte porque não quero acreditar que exista alguém tão legal como o Dave e, em parte, porque a ideia de estar com a razão me era muito querida. Em contra partida, pensar que a possibilidade de comer uma pizza é muito mais provável do que eu imaginava já fazia com que meu estômago reclamasse pela falta de comida ingerida durante o dia inteiro. – Ele fez uma pizza pra gente?
– Não. – Dave ri pelo nariz e eu sinto os músculos de sua barriga contraírem-se sobre meus dedos. – Ele não é assim tão gente boa. – Franzo o cenho, um pouco confusa, enquanto Dave finalmente estaciona a moto próximo ao passeio, em uma das muitas vagas vazias. Tiro minhas mãos dele no mesmo instante e tenho a total consciência de que ele percebe, uma vez que ouço-o dar um risinho, mas se abstém de qualquer comentário. – Ele só separou algumas sobras.
– Separei.  – Rick fala e, só então, percebo que ele pode nos ouvir agora que estamos perto o suficiente. – E vocês estão atrasados.
Desço da moto, ainda com a mesma dificuldade que tive pra subir por conta do peso extra que o vestido me faz carregar, e, quando percebe que estou mais embolada do que deveria, Rick me ajuda ao pegar a peça de minha mãe e segurá-lo consigo. Agradeço, sorrindo, e ele assente com a cabeça.
– Rick, você é o cara!
Dave fala, descendo da moto enquanto tira o capacete e, só nesse momento, percebo que ainda estou usando a minha própria proteção. Tiro-o imediatamente, entregando-o a  Dave.
– E você me deve um favor. – Rick volta a falar, nos dando as costas e indo em direção à entrada do estabelecimento. – Venham, vocês tem exatos dez minutos para comer enquanto eu termino de limpar algumas coisas na cozinha, já que isso é contra as regras e eu precisei liberar a menina que geralmente me ajuda pra vocês entrarem aqui. Aliás, você é bonita demais pra ele.
Tenho vontade de dizer que não estamos juntos e que, inclusive, ele está sendo muito solicito ao me ajudar a curtir a pior fossa em que já estive na vida, mas Dave é mais rápido ao mudar de assunto, então prefiro não acrescentar nada. Não é como se o mundo fosse acabar por causa disso, é?
– Dez minutos serão.
Dave promete e, então, seguimos Rick até a pizzaria, onde ele me devolve o vestido para procurar as chaves do estabelecimento no bolso.
Sinto meu estômago roncar no momento em que pisamos dentro do German, sendo esta uma das melhores pizzarias da região, e eu vejo o taco de baseball amarelo, que é marca registrada do local, servindo de decoração para a parede de fundo vermelho. É claro que comer de graça por privilégio de Dave faz com que a expectativa seja ainda maior.
– Sentem longe das janelas. – Rick fala, parecendo um pouco entediado. – Eu já volto.
Assim que ele sai, desaparecendo em uma porta atrás do balcão, Dave me puxa para uma das mesas da direita, no espaço entre duas janelas, ignorando completamente tudo o que seu amigo nos tinha recomendado. De qualquer forma, sabendo que a rua está deserta, sigo-o e sento-me na cadeira a sua frente, deixando o vestido cair no chão ao meu lado.
– Estou morrendo de fome. – Confesso, encolhendo os ombros. – Não como desde o almoço.
Quando Dave vai me responder, Rick abre a porta amadeirada novamente e sai de lá com uma caixa de papelão em tamanho mediano, se pondo a andar até a nossa mesa com uma cara um tanto entediada.
– Dez minutos.
– Dez minutos. – Eu confirmo e ele sorri, me mostrando o polegar no típico sinal de joinha espalhado por toda a internet. Abro o papelão em seguida, deliciando-me com o aroma que a massa emana. – Está bonita.
Dave se inclina, na intenção de observar a pizza, e franze a boca no instante seguinte, em completo desapontamento.
– Azeitonas. – Ele fala, antes que eu pergunte. – Estragam qualquer comida.
– Deixa pra mim então. – Eu falo, pegando uma das fatias com a mão e tirando-lhe uma mordida bastante significativa. – Eu amo azeitonas. Eu amo pizza. Obrigada por isso.
– Eu também estou com fome, não foi nada.
Ele balança a cabeça negativamente, se justificando enquanto tira todas as azeitonas, uma por uma, de sua fatia de pizza. Eu sorrio pra ele, mesmo com a boca parcialmente cheia, achando engraçado o fato de ele não ter entendido.
– Eu falo pela noite inteira. – Explico, encarando-o enquanto ele parece não dar muita importância para todo o caso. – Obrigada.
– Tome, pegue as azeitonas.
Ele fala, mudando completamente de assunto, e indica a bolinha verde com a cabeça. Presumo que essa seja uma reação carregada de vergonha, então, seguindo sua instrução, pego uma das azeitonas caídas no papelão da caixa de pizza.
Imediatamente lembro-me de um dos primeiros encontros de dois personagens, em uma dessas séries de comédia romântica que Mary fazia questão de que assistíssemos juntas. Nela, os personagens estão jantando quando a mulher, uma morena lindíssima, oferece um prato cheio de azeitonas ao homem, que lhe conta sobre uma teoria idiota baseada na fruta.
– O que foi?
Só noto que estou deixando que um meio sorriso se aposse de minha expressão facial quando ele me questiona, curioso.
– Nada. – Respondo-o, quase que imediatamente, mas não consigo me livrar do sorrisinho agora que percebo que ele está ali. – Besteira.
– O que foi?
Ele volta a perguntar, o sorrisinho agora também em seu rosto. Tenho a impressão de que, ao seu lado, essas coisas são contagiosas, uma vez que, sempre que um de nós demonstra o mínimo sinal de amabilidade, o outro acata.
– É que tem essa série. – Eu começo, dando a última mordida na fatia de pizza para ganhar mais tempo. – Eu acabei lembrando de uma cena quando você me ofereceu as azeitonas.
Dave assente com a cabeça e, pelo sorriso alastrado, tenho a total convicção de que ele sabe exatamente do que estou falando.
– Sobre duas pessoas se darem muito bem quando uma gosta muito de uma coisa que a outra odeia?
Ele coloca o principio da teoria de uma forma muito mais leve e simplificada, uma vez que, na série, as coisas são levadas indiscutivelmente para o lado romântico da coisa. Lembro de Mary ter dito, quando assistíamos, que, seguindo essa teoria, eu e Evan não deveríamos casar, porque sempre brigávamos pela posse do fruto da oliva e, quando penso nisso, sinto-me extremamente enganada, uma vez que, provavelmente, eles já vinham tendo um caso desde aquele ponto.
– Sim.
Confirmo, simples.
– E você acha que isso se encaixa aqui.
Dave mais afirma do que pergunta, pegando outra fatia para si e se desfazendo das azeitonas outra vez. Eu o sigo, não fazendo grandes enredos antes de me apossar da parte da pizza que ele não gosta.
– Você não?
Pergunto, antes de levar a fatia até a boca, pensando que não há coisa melhor para se comer em uma madrugada do que uma fatia bem gorda de pizza do German. Estou tão grata pela janta que não sei se considero Dave ou Rick um anjo. Talvez os dois.
– Acho, mas só por causa das azeitonas. – Ele começa, sorrindo enquanto fala. – Não porque você é legal ou coisa assim.
Jogo um caroço em sua direção, por pirraça, e damos aquele riso estranho que vai se esvaindo lentamente, até sumir por completo. Sei que, depois dele, ficará aquele mesmo silêncio de uma hora atrás, mas, dessa vez, minha mente trabalhou inúmeras vezes mais rápido do que na anterior, então consigo evitar o desconforto inteiro.
– Tá vendo aquele taco de baseball ali? – Pergunto, apontando para um ponto atrás de Dave, que se vira para olhar e, depois, se volta para mim, assentindo. – Quando eu comprei meu antigo apartamento eu tinha essa vontade secreta de roubar ele e levar pra decorar minha parede.
Ele ri, assentindo outra vez, como quem tivesse tido a mesma ideia em algum ponto da vida. Acho que, de qualquer forma, todo mundo que entra aqui se sente encantado pela magnitude da peça, mesmo que seja algo extremamente fácil de achar em uma dessas lojas esportivas.
– A gente poderia roubar, se não fosse pelo Rick. – Eu nego com a cabeça instantaneamente, porque não posso enfatizar já que não posso enfatizar com falas uma vez que tenho a boca cheia de pizza, fazendo com que Dave comece a rir outra vez.  – Estou brincando, Emma. 
Minha expressão de alivio deve ter sido ainda menos sutil do que eu achei que fosse parecer, porque Dave continua me olhando daquele jeito estranho enquanto eu termino de engolir o pedaço de pizza que tinha na boca. Por isso, quando Rick reaparece, não tenho chances reais de respondê-lo.
– Doze minutos, crianças. – Ele fala, batendo palmas pra chamar a nossa atenção. – A festa acabou!
Dave é o primeiro a se levantar, pegando o vestido do chão e me oferecendo a mão livre com mais pompa do que é necessário. Atrás dele, consigo ver um Rick entediado enquanto olha para o relógio de pulso, provavelmente contando os minutos para que possamos ir embora e, ele, voltar para casa.
– Mademoiselle.
Nego com a cabeça, me divertindo com a situação, e aceito seu auxilio ao me levantar da cadeira, entrando em sua brincadeira.
– Lindo, lindo. Realmente tocante. – Rick fala. – Mas eu estou morrendo de sono.
Dave levanta os braços, como geralmente acontece quando os policiais decidem enquadrar alguém e tem medo de que essa pessoa esteja armada, e solta a minha mão no processo, já caminhando para fora da pizzaria. Eu sigo-o instantaneamente, achando tudo muito divertido.
– Obrigada pelos dois minutos extras. – Eu falo, tocando seu ombro enquanto passo por ele. – Você salvou a minha noite!
Rick ri e, pela primeira vez, noto as covinhas nos dois cantos das suas bochechas, tão profundas que, provavelmente, era a primeira coisa que alguém reparava em sua fisionomia. Aceno pra ele assim que passo pela porta, imaginando que ele fez o mesmo, mas não esperando tempo o suficiente para ter certeza.
Corro para acompanhar Dave, que já está quase chegando no local onde estacionamos a moto, e pego o vestido de casamento de suas mãos quando percebo que ele tateia o bolso a procura das chaves. 
– Rick salvou sua noite, hum?
Ele fala, fingindo muito bem uma mágoa com a voz, embora a expressão fosse de piada. Entro na sua brincadeira, tocando seu ombro de forma acolhedora.
– Ele é mais bonito que você. 
Rimos juntos, enquanto ele tira a chave da moto do bolso e, logo em seguida, me passa o capacete extra. 
– Tenho uma última coisa antes de te levar de volta até seu Fusca. – Ele fala e, animada, assinto. – Provavelmente é uma péssima ideia, mas acabei comprando mesmo assim lá na loja de conveniência. Eu não sabia que eles vendi-
Interrompo-o, ciente de que ele continuaria falando ainda por algum tempo.
– Dave, vai logo! 
– Tudo bem, calma. – Ele fala, terminando de colocar o próprio capacete e se pondo a abrir a mala da moto. Quando dou alguns passos para frente, para ver do que se trata, noto metade de uma caixa de ovos ocupando um terço do espaço vazio. – Você disse que queria destruir algo que o Evan gostasse muito, então...
Ele fala, deixando a frase morrer no processo, mas não parece muito animado enquanto me olha, analisando cada centímetro de minha fisionomia, como se tivesse sido um idiota por ter pensado em algo assim e, mais idiota ainda, por ter compartilhado. 
É claro que eu ainda estava morrendo de raiva de Evan e de Mary e é claro que a ideia me pareceu muito convidativa desde o momento em que olhei para a meia duzia de ovos, lembrando-me da sensação libertadora que senti ao arruinar o vestido. Por isso, olho pra ele, confirmando com a cabeça.
– Nossa última parada?
Pergunto, sorrindo, e ele me retribui a expressão.
– Última parada.
***
Quando a moto para um pouco atrás do carro branco de Evan e eu noto que o veículo continua estacionado no exato lugar em que estava quando eu saí, desnorteada, a sensação de felicidade que Dave me ajudara a adquirir aos poucos no decorrer da noite é completamente massacrada pela memória viva de meu ex-noivo e de minha irmã fazendo amor no banco de trás.
Não sei muito bem o que achei que aconteceria quando eu chegasse aqui, mas talvez eu esperasse por algo mais fora do comum. Uma luz ligada, o carro fora da vaga de estacionamento, alguma coisa.
A ideia de que Evan não se importou o suficiente, mesmo depois da explosão que dei quando estávamos ao telefone mais cedo, me faz ficar cheia de raiva e também de tristeza. Como se tudo o que tínhamos juntos não tivesse significado nada pra ele.
Quando percebo, ainda em cima da moto, estou fungando, tentando fazer com que as lágrimas não desçam pelo meu rosto outra vez.
– Foi uma ideia ruim, não foi? – Dave pergunta e eu nego com o rosto, sabendo que ele pode sentir os movimentos em suas costas. – Eu sabia. Vamos embora, deixo você no seu carro.
Nego novamente, deixando o vestido cair no chão ao limpar as lágrimas fujonas que insistiam em descer pelo meu rosto com a manga vermelha do moletom. Detesto a ideia de estar chorando outra vez, como se eu não tivesse controle sobre as minhas emoções ou coisa parecida.
– Isso geralmente funciona nos filmes, não funciona?
– Geralmente, mas-
Dave está prestes a terminar a frase quando uma luz proveniente de algum veículo grande o interrompe. Eu sei que aquele é o carro de Mary assim que ele nos ultrapassa e estaciona um pouco mais a frente e eu sei que a cabeleira loura encaracolada no banco passageiro pertence a Evan.
Desço da moto no mesmo instante, ouvindo Dave me chamar ao fundo, provavelmente deduzindo tudo antes mesmo que eu pudesse explicar. É claro que, quando escutam meu nome e me veem indo em direção ao carro, os dois descem do veículo. Sequer consigo descrever suas expressões.
– Emma? – É Evan quem pergunta, dando dois passos na minha direção. Em contra partida eu dou dois passos para trás, me afastando dele. – O que você está fazendo?
– Me vingando de você. – Eu falo infantilmente, em um sussurro. Noto Dave ao meu lado, o corpo completamente rígido, em alerta. – Foi o que fiz a noite inteira, sabia? E agora eu vim jogar a droga de um ovo nessa merda desse seu carro, coisa simples, mas você está aí de novo, de novo, com a porra da minha irmã!
 – Você está maluca? A gente está a noite inteira atrás de você! – Ele pergunta, se aproximando de mim outra vez. Dave dá um passo à frente, ainda naquela mesma postura estranha, e Evan parece notá-lo pela primeira vez. – Emma, quem é esse cara?
– Não interessa pra você!
Grito, com tanta raiva que sinto meu corpo começar a tremer. Mary nos observa com os olhos arregalados, claramente assustada, e eu percebo que tudo o que eu quero é ouvir um pedido de desculpas.
Não quero alimentar rancor de nenhum dos dois, porque sempre achei que esse tipo de coisa fizesse mais mal pra mim do que para os outros envolvidos, mas também não quero simplesmente perdoá-los sem que houvesse o mínimo de esforço de suas partes. Eu queria uma justificativa, um pedido aberto de desculpas e, mais do que isso, arrependimento.
Mas não encontro nada disso em nenhum dos dois.
– Você também me traiu, não foi?
Evan me acusa e, incrédula, questiono-o.
– O quê?
Pergunto, mais porque preciso ouvir de novo para acreditar no que ele falou do que por, de fato, não ter conseguido escutar quando ele falou da primeira vez.
– Você também me traiu. – E, olhando para Dave, completa. – Com ele.
– Quem é você, Evan? – Pergunto, desistindo de tentar conter as lagrimas que, em algum momento, voltaram a descer pelo meu rosto. Minha visão embaça cada vez mais e, quando sinto os soluços começarem a aparecer, fecho o punho com muita força em busca de autocontrole. – Você é mesmo um idiota, não é?
– Sou. – Ele fala e, quando tenta se aproximar ainda mais de mim, Dave o impede. Ele dá risada, exatamente como um daqueles caras malvados de filme fariam, e eu percebo o escárnio estampado em sua face. – Sou idiota porque escolhi a irmã errada.
As palavras me atingem como uma bola de demolição: fortes, inesperadamente e extremamente dolorosas. Não sei mais o que responder, completamente decepcionada com a pessoa com quem quase assinei um contrato de amor vitalício, e apenas dou-lhe as costas, ciente de que Dave está logo atrás de mim.
Ouço Mary chamar por meu nome, segundos depois, em um tom lamuriento, mas só paro de andar quando chego onde deixamos a moto, notando, só agora, que sequer tirei o capacete preto em formato de cuia na cabeça durante todo o momento em que estive tentando resolver as coisas com Evan - e falhando miseravelmente, é claro.
Abaixo para apanhar o vestido, completamente robótica, enquanto espero que Dave suba na moto e a ligue para que eu possa fazer o mesmo e ir pra qualquer lugar que fosse longe o suficiente de tudo aquilo.
05:15 AM
 Desço da moto assim que Dave a estaciona, não esperando muito para me livrar do capacete também. A sensação de que tenho é que preciso sair dali o mais rápido que consigo, não querendo prolongar ainda mais nosso tempo juntos depois do que ele teve que presenciar.
É claro que fugir de alguém como Dave, depois de tudo o que ele fez por mim durante a noite inteira sem nem mesmo me conhecer, é um ato covarde, mas o faço mesmo assim.
– Emma. – Ele me chama e, então, eu percebo que está vindo em minha direção. – Emma, ei. – Paro, ainda de costas, sem muita coragem para encará-lo também. – O cara é um idiota, tá legal? – Ele começa e, ainda tentando conter as lagrimas, eu olho para cima, na esperança de que, dessa maneira, elas não consigam descer. É quando noto o sol começando a sair. – Ele ter dito aquelas coisas sobre você e insinuado sobre a gente só prova que estou certo. Você não precisa chorar por alguém como ele.
– Não é por isso que estou chorando. – Falo, ainda encarando o nascer do sol enquanto tento me recompor. – Quer dizer, é. Mas... – Grano, frustrada. – Dave, olhe pra mim: eu sou patética!
– Você nã-
– Sou! Sou sim! Passei a noite inteira curtindo uma fossa miserável. – Falo, abaixando a cabeça e, finalmente, virando-me para ele, mas até encarar o vestido em minhas mãos parece mais fácil do que olhar seu rosto outra vez depois do último episódio. – E pra quê? Ele não pediu desculpas... Porra, ele não parecia sequer arrependido. E a Mary...
– Sua irmã e seu ex-noivo, o que eles fizeram, diz mais sobre eles mesmos do que sobre você. – Ele fala, aproximando-se mais de mim. – Olhe pra mim. – Ele pede e, então, eu olho. – Eu passei a noite inteira com uma pessoa incrível. Conversei, dentro daquele carro azul velho – Ele aponta para o fusca estacionado no outro lado da rua e eu sorrio, limpando as lagrimas. –, com uma pessoa incrível. Comi pizza com uma pessoa incrível. Se ele não entende isso, que você é incrível, então o melhor a se fazer é-
Não deixo que ele termine a frase, inclinando-me inesperadamente e roubando-lhe um beijo. É claro que posso culpar a minha fragilidade momentânea por tal ato, uma vez que, em outras ocasiões, algo assim seria repreendido no momento em que a ideia se passasse na minha cabeça, mas as circunstâncias não eram normais.
Dave não parecia estar preparado para isso, tampouco, e mostra-se um tanto surpreso nos primeiros dois segundos do beijo, não sendo capaz de me retribuir. Quando se recupera do susto, no entanto, sinto suas mãos enlaçarem-se na minha cintura e puxarem-me para mais próximo de si, acatando o meu pedido mais facilmente do que eu imaginei.
Separamos-nos no instante seguinte, fazendo com que a coisa toda não tenha durado muito mais do que alguns segundos, e a estranheza do momento cai sobre nós dois, como se estivéssemos de volta à adolescência e não soubéssemos como agir depois desse tipo de contato.
– Desculpa.
Sussurro assim que nos separamos, ainda emaranhados nos braços um do outro, torcendo para que ele entenda que não tem haver apenas com o beijo. Dave nega com a cabeça e, quando percebo, estamos nos beijando outra vez.
É engraçado como as coisas fluem estupidamente melhor agora, na segunda vez, muito embora eu não tenha sentido nada de especial com o seu toque sobre mim enquanto nossas línguas encontravam-se. É claro que Dave sabe como dar um beijo, mas acho que isso só aconteceu por conta da minha frustração ao rever Evan, como se eu precisasse disso pra provar a mim mesma de que não preciso dele pra nada.
Separamo-nos algum tempo depois e, dessa vez, apenas continuamos nos encarando pelo que me parece quase uma eternidade. Sei que esse beijo não significou muita coisa para nenhum de nós dois, mas a boca avermelhada de Dave ainda me é muito convidativa.
– Eu preciso ir. – É ele quem quebra o silêncio, passeando suas mãos pelas minhas costas e, depois, descendo-as até minha cintura em um afago carinhoso. – Meu trabalho começa às sete.
– Já é segunda, não é? – Eu pergunto, retoricamente. – Obrigada, então.
– Você vai ficar bem? – Assinto, sorrindo-lhe pequeno. – Certo. Então eu já vou.
Dave não me beija na boca outra vez, muito embora quando suas mãos param de tocar minha cintura para irem em direção ao meu rosto eu tivesse voltado a fechar os olhos com certa expectativa. Ao contrario do que eu esperava, no entanto, senti sua boca tocar minha testa, em um gesto completamente mais bacana e afetuoso.
 Ele se distancia depois disso, caminhando de volta até a sua motocicleta, e eu observo-o até que ele suma completamente de minha vista, buzinando em algum ponto, pensando que dei muita sorte ao cruzar meu caminho com o de alguém como ele.
Ando até meu fusca azul depois disso, forçando a porta para que ela abra e jogando o vestido branco em seu lugar de origem antes de, de fato, me acomodar atrás no volante.
A sensação de que tenho ao fim de nossa aventura ainda é a mesma que tinha no inicio dela: deslocamento, como se nada no mundo fizesse mais sentido. É claro que, aos poucos, no decorrer da noite, Dave me ajudou a reparar alguns danos mais superficiais ao me fazer esquecer, momentaneamente, de todas as minhas frustrações amorosas e familiares, mas, agora que me encontro sozinha novamente, principalmente depois do balde de água fria que foi meu encontro com Evan, sinto como se pudesse encher a cara outra vez.
Aperto as mãos no volante do fusca até que elas fiquem brancas, decidindo, naquele momento, que estava tudo bem no fato de o casamento não acontecer porque descobri algumas verdades dolorosas. Decidindo que estava tudo bem no fato de eu ter beijado um cara, mesmo que, lá no fundo, algo me dissesse que isso não era o certo a ser feito. Decidindo que estava tudo bem e que eu iria passar por isso, agora, como qualquer mulher adulta faria e como eu devia ter feito desde o inicio: encarando o problema com maturidade.
Olho para meu próprio reflexo no espelho retrovisor do carro, suspirando antes de ligar o veiculo de uma vez e tirá-lo da vaga de estacionamento que ficou durante uma noite inteira. Na minha cabeça, a frase se repete mais vezes do que posso contar: está tudo bem.